Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

Guia de sobrevivência, parte II

Roupa de festa. #bica #lisboa

Obrigada a todos pelos comentários deixados no post de ontem, o Guia de Sobrevivência à Psique Nacional.

Porque os comentários deixados aqui e no Facebook me pareceram muito interessantes, faço-lhe aqui uma adenda.

O ponto quatro, sugestão do CSL, fazer o luto do que a vida já foi e do que já tivemos. Sim, já todos tivemos épocas de mais abundância, mas a vida continua. O sol brilha todos os dias e a Terra vai continuar a girar, com euro, sem euro, com mais dinheiro ou menos na carteira.

Já todos tivemos sonhos e desejos que por uma razão ou outra não se concretizaram. E sobrevivemos, não é verdade? A vida muda, delineamos novos objectivos, criamos outros sonhos. No Verão há-de continuar a cheirar a urze, quer tenhamos mais impostos ou não.

E por falar em impostos, acrescento aqui o ponto cinco, sugestão da minha amiga M., que diz que não devemos esperar nada da parte do Estado e que devemos lutar pelo nosso bem-estar sem esperar nada de ninguém. Na minha opinião, este ponto está intimamente ligado ao que dizia ontem a respeito do complexo de vítima, porque é a vítima que espera que um "alguém" indistinto lhe resolva os problemas.

E o ponto seis, que cheira a maresia, veio da minha amiga I., que recomenda sol e mar. Eu completaria com todos os pequenos prazeres que não se pagam nem têm preço: um passeio no jardim, um livro na biblioteca, um encontro com um amigo de quem se tem saudades.

Mais sugestões?

Terça-feira, 4 de Junho de 2013

Guia de sobrevivência

Perfectly blue on a #perfectblue #lisbon day.

Este blog vive um pouco abandonado pelas circunstâncias de todas as mudanças que estão a acontecer na minha vida. Por um lado, a chegada dos caixotes com as nossas coisas. Do apartamento tipo salão de baile em que vivíamos no Panamá, viemos para um apartamento com um terço do tamanho, ou seja, voltámos àquilo a que sempre chamámos de vida real (e que também tínhamos em Buenos Aires, atenção).

Além disso, estou também a mudar-me para o meu novo atelier, pintura de paredes incluída, o que significa dias de trabalho físico e poucos momentos para me sentar a escrever. Os poucos que tive foram canalizados para os meus artigos semanais no Portugalize.me. Diria que estive em serviços mínimos.

Aos poucos, no entanto, as coisas regressam à normalidade e a nova rotina começa a desenhar-se. O atelier está quase pronto, e a mudança está para breve. Em casa já começámos a cozinhar e a fazer bolos.

(Abro um parêntesis para aqui partilhar que certo bolo de laranja que fiz para o Dia da Criança, no Sábado passado, foi muito apreciado e mais agradecido por certa menina de quatro anos. Tia babada ainda mais babada.)

Mas voltemos ao assunto deste post.

Ontem tivemos a companhia ao jantar de um amigo que se prepara para uma nova experiência internacional, depois de ter estado dois anos a viver em Lisboa. A dada altura, quis saber quais estavam a ser as primeiras impressões do nosso regresso a Portugal. Hoje, ao reflectir sobre as respostas que lhe demos, fiquei a achar que podia compilar um Guia de Sobrevivência à Psique Nacional.

Mas antes de enumerar os pontos deste Guia, quero aqui fazer um esclarecimento inicial: esta crise é absolutamente horrível; as pessoas estão cada vez com o orçamento mais apertado; há quem esteja em situações incrivelmente vulneráveis; há uma nova pobreza envergonhada que é uma tristeza. Haver uma só pessoa com fome é intolerável; e infelizmente há muito mais que uma.

Posto isto, considero que há certos traços da psique nacional que são muito anteriores à crise. Por um lado, nota-se que há uma grande camada da população que, no aperto, tem de se atirar de cabeça para o desafio. Parece-me positivo e noto que existe uma grande mudança de mentalidade numa boa camada da população.

Por outro lado, e é aqui que o Guia de Sobrevivência entra, continuam a persistir certos traços do carácter típico português. Entendo que muitos desses traços vêm dos longos anos de ditadura; mas haver uma explicação não significa que esse comportamento seja imutável ou mesmo justificável.

Entro por isso no primeiro ponto do meu Guia de Sobrevivência: não ver notícias. Nenhumas. Chamem-me desinformada, porque não? Escolho não ligar a televisão à hora do noticiário porque não quero consumir notícias dadas de forma a deprimir ainda mais quem as vê. Exerço o meu direito de escolha lendo os jornais online e seguindo vários órgãos de informação no twitter, onde controlo quais os artigos que vou ler e as reportagens que vou ver.

Como vêem, em vez de desinformada prefiro selectiva.

O segundo ponto no meu Guia de Sobrevivência é não fazer queixinhas. Quero aqui fazer uma distinção importante entre aquilo a que chamo queixinha e a reclamação: a primeira é aquele desabafo resmungueiro e frustrado para o ar, que geralmente inclui o pronome "eles" para reflectir a impotência do próprio em relação à situação. Ou seja, está tudo péssimo e a culpa é de um "eles" impreciso. A segunda, a reclamação, é aquela em que se faz algo, independentemente de vir a dar frutos ou não, para manifestar o desagrado junto das autoridades competentes.

Dou um exemplo: no final da semana passada, descobri que me faltava o anexo SS na declaração de IRS. Não nego: senti-me indignada por ter visto a minha declaração ser validada pelo sistema e afinal faltar-lhe um anexo. E que a falta de apresentação do dito me faria incorrer numa coima que, naturalmente, não me apetecia nada pagar. Não sei se fomos muitos ou poucos a fazê-lo, mas apresentei uma reclamação junto da Autoridade Aduaneira e Tributária. O certo é que houve um alargamento do prazo para a apresentação do referido anexo. E não, a reclamação não precisa de ser presencial, em papel azul de 25 linhas: a minha reclamação foi feita por twitter (e também já fiz outras por e-mail e por telefone).

Resumindo, o meu compromisso comigo própria é que para haver uma queixinha em momento de desabafo, tem de haver uma reclamação, uma acção minha para tentar mudar as coisas. Pode não resultar em nada, mas pelo menos sinto que agi.

O terceiro ponto no Guia de Sobrevivência é afastar-me de pessoas com complexo de vítima e rodear-me apenas de pessoas lutadoras e empreendedoras. Pode parecer cruel, mas a vida já é complicada por si mesma, não preciso de ainda ter pessoas a puxarem-me para baixo. Por isso, resmungões, mal dispostos e queixinhentos, muito obrigada, mas não. Quero é estar com pessoas empreendedoras, lutadoras, optimistas. E todos, todos temos direito a momentos de cansaço, de tristeza e de desespero; mas enquanto uns decidem colocar o poder de mudar a situação na mão de terceiros (ou seja, as vítimas), outros decidem que vão fazer o que podem - que às vezes até nem é muito - para mudar a situação em que vivem. É deste grupo de pessoas que me quero rodear.

E vocês? Têm pontos a adicionar a este Guia de Sobrevivência?

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Barcelona

Sunday stroll in #bcn

#barcelona

What's not to love about #barcelona?

What's not to love about #bcn ?

Pastas Alimenticias in #bcn #type

This #dragon was hard to capture. I wonder what this building was before; today it's a branch of a bank. #bcn  #umbrella

#bcn

#bcn

#bcn

Some of the many, many trophies #barça won #bcn

Chocolate, ice cream and macarons in #vioko #bcn

O vício. #chocolate #vioko #bcn

Ele há cidades que, não sendo Lisboa, conseguiram entrar directamente no meu coração. Barcelona é uma dessas cidades que quanto mais visito, mais gosto.

E vocês? De que cidades gostam mais? E quais gostariam de visitar?

(Outras cidades no meu coração: Medellín | Buenos Aires | São Francisco)

Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Boas notícias: o meu artigo na revista Uppercase

Uppercase #17: Stationery around the world

Uppercase #17: Stationery around the world

Que alegria! O meu artigo para a Uppercase, sobre artistas e artesãos latino-americanos que trabalham no âmbito do material de papelaria, saiu no mais recente número, o 17.

Estou desejosa de receber o meu exemplar no correio e ver, com os meus olhos e as minhas mãos (e com o meu nariz, porque diz que nesta edição também há qualquer coisa para cheirar), as palavras que escrevi.

Agradeço desde já aos artistas que tiveram a amabilidade de responder às minhas perguntas

Corrupiola (Leila e Aleph)
Alpharrábio (Ana Roberta)
La Casuni (Valeria)
Cecilia
Toshisworld (Nieves Pumarejo)

e, obviamente, à editora, Janine Vangool, que me fez tão amável convite.

Se algum leitor tiver vontade de fazer uma assinatura, pode aproveitar o seguinte código promocional para receber um desconto de $10: "contributor17"

Estou contente! Viva!

Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

"airing from Lisbon" é o novo nome da zine

"We're in Panama!" is now "airing from Lisbon"

Depois de umas semanas em "serviços mínimos"

(logística da mudança oblige)

ei-la, a zine! Já com novo título, sugerido por uma leitora muito perspicaz e hábil com as palavras - a minha irmã Ana, obrigada! -, o novo número da zine está disponível no meu site, como de costume.

A página do facebook também já mudou de nome, visitem-na! Mas o melhor, o melhor mesmo, é assinarem a minha newsletter, onde partilho "coisas giras" do meu trabalho.

(Vou ali fazer a minha dança da felicidade por ter finalmente podido publicar a zine, depois deste período tão conturbado. Na próxima edição falarei mais sobre a adaptação à nossa "nova" cidade. Não percam!)

Coisas que acontecem em Lisboa

This pink house looks like a doll house. #lisbon #lisboa

Quanto mais ando por Lisboa, mais apaixonada estou por esta cidade. Que fazer? Para além das casinhas de bonecas - algumas delas a desintegrarem-se, é certo, mas muitas já restauradas - temos os passeios brancos de calçada portuguesa, temos o sol e o rio, as colinas e os miradouros.

Mas há muito mais: há as pessoas.

Um dia, passei a pé por um edifício que me parecia tão saído de um livro que não consegui afastar o olhar. Lá em cima, à janela, uma senhora estendia a roupa; ao ver-me olhar fixamente, sorriu para mim. Devolvi-lhe o sorriso com o coração quente: depois de viver em cidades anónimas, soube-me bem este pedacinho de interacção.

Passei mais vezes pelo mesmo edifício, que continua a exercer o mesmo efeito sobre mim. E numa dessas vezes estava lá a mesma senhora, de janela aberta, a gozar o sol. Viu-me, disse-me adeus de longe e soprou-me um beijinho, que flutuou até mim.

Fiquei feliz, feliz. Lisboa é linda.

Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Panamá Bye Bye III: a travessia do canal

Um dos nossos planos de despedida do Panamá foi a navegação parcial do canal. Coisa para ter cerca de 80km de comprimento (algo fantasticamente pequeno se pensarmos que é a distância entre oceanos naquele ponto do continente americano), a navegação completa demora um dia inteiro e só é feita no primeiro sábado de cada mês. Por isso optámos pela navegação parcial, mais curta, a começar no meio do canal (e na sua cota mais alta, no Lago Gatún) e a terminar no Pacífico, do lado da Cidade do Panamá, dois conjuntos de comportas e vários metros de desnível mais tarde.

As comportas são uma ferramenta importante do canal por várias razões. Apesar de ambos os oceanos estarem ao mesmo nível (o chamado "nível médio das águas do mar"), o interior do canal, o lago artificial de Gatún, está a uma cota superior. Este lago serve de reservatório das águas da chuva e oferece, também, uma zona de navegação mais profunda para os barcos com maior calado. As comportas, com as suas câmaras que servem de elevadores para os barcos, ajudam a controlar o nível da água no Lago Gatún - e nunca é demais relembrar que é através da água da chuva, que cai todos os dias entre Março e Dezembro, que o canal funciona.

Voltando ao nosso passeio, a manhã começou cedo perto do ancoradouro de Amador, onde o passeio terminaria algumas horas mais tarde. Aí apanhámos um autocarro que nos levou até ao centro do istmo, ao ponto médio entre as duas costas.

We're crossing the #panama #canal. Who wants to join us?

Perto de Gamboa, zona natural protegida e muito bem cuidada, apanhámos um barco de cruzeiro que nos levaria pela nossa viagem.

Gamboa #panama

Lago Gatún #panama

Cruising the #panama #canal

Começamos a navegação em direcção ao sul, ou seja, à Cidade do Panamá, na costa do Pacífico. Durante o caminho, cruzámo-nos com barcos imensos, que faziam lembrar gigantescos edifícios flutuantes. Nós, naquele "pequeno" barquinho de cruzeiro, éramos pouco mais que formiguinhas. Vimos barcos refrigerados (levam flores e outros produtos que requerem uma atmosfera controlada), vimos barcos silos (levam grãos e cereais), vimos barcos cheios de automóveis, com pequenas estradinhas dobradas, como se de um origami se tratasse.

This ship carries grains, sand and fertilizers. #panama #canal

Chegámos enfim ao primeiro conjunto de comportas, ou eclusas, as de Pedro Miguel. Dentro das câmaras, a administração do canal juntou vários barcos de cruzeiro, juntamente com outras pequenas embarcações, para aproveitar "a viagem".

Pedro Miguel locks in #panama #canal

Inside Pedro Miguel locks. #panama #canal

Quando descemos, verificámos o quão assombrosamente perto estávamos da parede do canal. No caso dos navios panamax, aqueles que têm a dimensão máxima permitida para transitar o canal do Panamá, a distância entre o casco e a parede é de apenas 50 centímetros, o que sempre me provocou calafrios, a par de uma imensa admiração.

Dentro da eclusa de Pedro Miguel, #canal do #panamá

Passado algum tempo, entrámos nas comportas de Miraflores, as mais próximas da Cidade do Panamá e que por isso recebem mais visitantes. No centro de visitantes, para além de uma tribuna panorâmica, um restaurante e diversos apoios turísticos, têm também um museu muito completo com a história do canal e a envolvente ecológica da zona de protecção especial que o circunda. Já aqui falei dele, noutros momentos.

Bridge of the Americas, uniting north and south. #panama #canal

Under the bridge, arriving to the Pacific Ocean. #panama #canal

Com a Ponte das Américas no horizonte, a nossa viagem aproxima-se do fim. Dizem os panamenhos que esta ponte une as duas Américas, a do Norte e a do Sul, e se bem que esta não é a visão mais rigorosa possível, é um símbolo bonito para o enorme continente que aqui se transforma num fino istmo. Diria que todo o Panamá é uma ponte das Américas, a unir as duas massas de terra com um aparentemente tão frágil elo.

Chegámos então ao fim da nossa viagem no ancoradouro de Amador, onde tínhamos apanhado o autocarro, essa manhã. É um passeio que vale a pena fazer, pelo menos uma vez. Afinal de contas, o canal é o protagonista nacional.

Mais posts sobre visitas ao canal: visita às eclusas de Gatún, no mar das Caraíbas, Oceano Atlântico e o "Tal Canal".

Quarta-feira, 27 de Março de 2013

Panamá Bye Bye II: as vistas de casa

Nos três anos que vivemos no Panamá morámos num quadragésimo nono andar. Sim, leram bem, quadragésimo nono. (E sim, subi algumas vezes as escadas até lá acima, eram cerca de 15 minutos a ofegar e a transpirar.)

Para além do nosso apartamento ser muito bonito, as vistas que tínhamos de lá de cima eram panorâmicas, como se pode imaginar. Para este, víamos Costa del Este, bairro onde o Príncipe trabalhava; para lá víamos verde e mais verde até ao aeroporto, e daí ainda mais verde na direcção do Darién e da Colômbia. Para oeste, víamos a Avenida Balboa, o Casco Viejo, víamos a Ponte das Américas (que atravessa o canal e, no dizer popular, une a América do Sul à América do Norte) e várias gruas do canal.

De lá de cima víamos também o belíssimo Templo Bahá´í, no topo da colina. E de lá de cima eu controlava o trânsito e indicava ao Príncipe o melhor caminho a tomar no regresso a casa, no caso do Corredor Sur estar muito congestionado.

Good morning, #pty

Good morning, #pty

A aproveitar a vista na contagem decrescente. Bom dia! #pty

Enjoying the view before leaving #pty

A conclusão a que chegamos é que me parece muito adequado que, depois de três anos lá em cima, a ver as tempestades acontecer à mesma altura, aqui nos mudemos para um rés-do-chão. É justo.