Já aqui contei que escrevo um post semanal no blog Portugalize.me. Penso que o âmbito desses posts também é válido aqui no Entre..., e por isso, de agora em diante, transcrevê-los-ei aqui também neste estaminé. Espero que gostem!
*
Ele há "postais" que transcendem qualquer fronteira.
Já de volta ao Panamá, temos estado com obras em casa, em virtude (ou desvirtude) de o chão de pedra da sala se ter levantado e explodido, devido a um "assentamento" do edifício. E pensar em obras em casa dá logo dores de cabeça, seja em que latitude for.
Com obras aqui no Panamá, e com este contacto forçado com o mundo da construção civil, tem sido curioso descobrir que há estereótipos que pensava serem bem "tugas", mas, bem pelo contrário, são universais.
Comecemos então pelo Pintas. O Pintas, assim chamado devido ao seu discurso e linguagem corporal de "vocês desconhecem tudo sobre o tema e eu, em contrapartida, domino-o", chega e entra casa adentro, dono da empresa que vai executar o arranjo. Para ele, tudo é fácil, nada suja e os rapazes vão deixar tudo num brinquinho quando saírem. O melhor de tudo é a sua pontualidade, em que "agora" significa "daqui a meia hora, com sorte" e "estou no elevador da outra torre" significa "não me maces, mulher, que sou preciso noutro lugar". Há sinais que o delatam: o porta-chaves com a chave do carro que pende do bolso, deixando a marca de fora. A camisa, não entalada, a cair-lhe em grande estilo por cima das calças de ganga, que são de marca e vincadas, claro. Usa sapato fino e nota-se, de uma forma geral, que há anos que não carrega um balde, quanto mais um carrinho de mão. Não admira que não saiba que uma obra suja, olhando para o seu aprumo; ele simplesmente não frequenta. Para melhorar tudo, trata toda a gente por tu, desde o empregado ao cliente, e pergunta muitas vezes se entendemos (porque todos sabemos que nós, mulheres, pouco ou nada entendemos).
Depois temos o Empregado do Pintas, um pobre desmotivado cuja única luz na sua vida laboral é o dia do pagamento. Nesse dia, trabalha meio tempo para ir receber o cheque e distribui com intervalos generosos de tempo as tarefas pelas poucas horas em que trabalha. Do Pintas, nem o número de telefone tem; encontram-se apenas quando este aparece, qual visão, para vistoriar o trabalho, e de caminho dar-lhe ordens. O Empregado do Pintas é um pobre desmotivado, que não entende o conceito de brio nem lhe compensa trabalhar mais rápido. Por isso traz o jornal, o telemóvel, e, se possível, companhia para conversar. O seu lema é "Calma. Muita. Calma."
Finalmente temos não os senhorios (que desses, felizmente, só podemos dizer bem) mas sim a sua Representante na cidade, já que vivem fora. E a sua Representante é, também ela, um estereótipo. É reconhecida pela forma como trata mal a quem sente que está num degrau abaixo na sua linha nobiliárquica interna, aquela que só ela conhece, e com falsa deferência a quem sente que está acima. É um encanto na sua calça justíssima e de cintura demasiado baixa, e exibe a sua roupa interior como se disso dependesse a nossa felicidade. Naturalmente, interrompe os outros e não ouve nada do que lhe dizem, inventando explicações e justificações para assuntos que claramente não domina. É constantemente desmentida pelos factos, que ela ignora pacificamente. Afinal de contas, ela sabe.
Tudo isto para dizer o quê? Que a expressão "só neste país...", tantas vezes ouvida na paragem do 713, não tem qualquer validade. Ele há "postais" que transcendem qualquer fronteira.
(texto originalmente publicado a 21.05.2012, no blog Portugalize.me)
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
San Miguel de Allende, México



Confirma-se: o meu encanto com o México manteve-se até ao final da estadia. Por momentos tive medo que alguma coisa acontecesse e mudasse radicalmente de ideia. Mas não. Não fui assaltada, nem assediada, estive em lugares lindos, fui bem atendida em todo o lado, os carros pararam nas passadeiras e lavei os olhos - e a alma - com as casas, as cores, as vistas.
San Miguel de Allende confirmou o seu lugar no topo da tabela da minha paixão mexicana, seguida de muito, muito perto pela comida, e logo a seguir pela Cidade do México - ou por alguns bairros da Cidade.

Quando chegámos, fomos recebidos por uma procissão na praça principal, com direito a guitarrada e cantoria, ao mesmo tempo que na Igreja Matriz se celebrava um casamento e um grupo de mariachis, à porta, esperava pelos noivos.

A cidade está muito bem conservada, desde as suas cinquenta e três mil igrejas (não sei ao certo, mas são muitas), às livrarias e centros culturais, uma biblioteca pública cheia de livros e de gente, lojas e lojinhas bonitas, com pátios e fontes, e ruas empedradas e inclinadas, para ajudar a digerir a tortilha e o gelado.


Ficámos instalados numa casona colonial linda, de portas pintadas e quartos a dar para o pátio, pertinho do centro e dos correios, onde me deliciei na minha plática com o funcionário. Ao saber que os postais eram para pessoas fofinhas, deu-me uns selos lindos e adequados (e cor-de-rosa) para neles colar. Espero que cheguem brevemente, porque sei que são muito apreciados.
San Miguel de Allende é daquelas terras onde me imagino a voltar uma e outra vez.
Dados: ficámos alojados na Casa Schuck (muito recomendável), comemos na Hacienda de Guadalupe (também deliciosa, mas desconfio que em qualquer boteco mexicano se come bem). Fizemos compras em várias lojinhas, onde sempre, sempre nos trataram com imensa simpatia e atenção. Ah, serviço mexicano, já tenho saudades.
Mais fotografias mexicanas aqui.
Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
Cartas do México



Nunca uma cidade me surpreendeu tanto, e tão positivamente. Terá sido porque as minhas expectativas eram realmente baixas, depois de tantos avisos quanto à segurança, ao trânsito intenso, à poluição do ar. Imaginava uma cidade gigantesca (que é), onde não podia caminhar pela rua, nem andar num autocarro, muito menos ter cara de estrangeira (que também tenho).
Mas não: após alguns dias aqui, estou fascinada com esta cidade. Cada bairro (e são muitos) é como uma pequena cidade dentro da cidade, e portanto atmosfera muda de rua para rua. É uma cidade cortada por vários eixos, de vários quilómetros, onde o trânsito é, de facto, ensurdecedor. E um quarteirão ao lado, nem mais nem menos, estamos no interior do bairro, ouvem-se os passarinhos e circula o ocasional carro, que abranda para me deixar atravessar.




Em muitas ruas me sinto em Buenos Aires, mas sem estar. As caras aqui, contrariamente ao que acontece na cidade meridional, são mestiças, desde o executivo até ao vendedor de rua. As pessoas são de uma simpatia que há muito não vejo - talvez desde que estive a fazer compras no comércio de bairro lisboeta. A vendedora de tecidos artesanais esteve a mostrar-me as diferentes moedas, quando lhe disse que ainda não as conhecia muito bem; foi até buscar a de 20 centavos de peso (1 cêntimo de euro) para que eu a conhecesse. Mostrou-me tudo o que fazia com os tecidos que vendia, desde o avental que trazia até à encomenda de guardanapos para um restaurante. Mais do que uma transacção, foi uma bela conversa. Saí com a alma cheia de sorrisos e voltei à rua, onde me senti tranquila, segura, e onde ainda não ouvi um único piropo (assédio, gente, assédio).
E já que falamos em costumes machistas, ou a ausência deles, também me surpreendeu muitíssimo que aqui os casais homossexuais dêem livremente as mãos em público, se beijem e abracem, sem serem olhados de relance ou serem apontados. Para mim, mais que um sinal dos tempos é indício de desenvolvimento social. Não sei se será assim em todo o lado, mas aqui, certamente, é.

Até agora, usei o Metrobus, transporte público colectivo idealizado em Curitiba e importado por tantas cidades (Bogotá é uma delas). Trata-se de um "metro" de superfície, em que as carruagens, na verdade, são autocarros. O acesso é feito através de estações elevadas, de acesso reservado, e os veículos circulam em faixas dedicadas e isoladas, nas maiores avenidas. Não exagero quando digo que passam com intervalos de 15 a 30 segundos e as viagens têm um custo de 5 pesos (30 cêntimos de euro). Além disso há o Metro, que usarei amanhã e que tem uma extensa (e segura) rede.
É por tudo isto que a Cidade do México me conquistou de supetão, quando menos esperava. Estou fã, fã - e se tiver oportunidade, volto.
A colecção de fotografias, no flickr, encontra-se aqui.
Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
Antigua Guatemala


Seguindo as recomendações dos amigos chapines (guatemaltecos), assim que aterrámos no aeroporto La Aurora (que nome lindo!), na Cidade da Guatemala, encaminhámo-nos directamente para a antiga capital do país, cujo nome é, sem surpresas, Antigua Guatemala.


O nome pode não ser surpreendente, mas a cidade é. Mais tarde ficámos a saber que já não era a primeira capital, mas sim a terceira, depois de Iximchel (que não visitámos) e Ciudad Vieja (que visitámos, de bicicleta, e fica a poucos quilómetros de Antigua). A cidade está rodeada por três vulcões, visíveis de todos os pontos da sua planta e que muito ajudam à orientação. Ao sul, o vulcão de Água, assim chamado devido a um triste acontecimento em 1541, quando uma imensa enxurrada de água estagnada acumulada na cratera, juntamente com lama e terra, inundou a então capital. A sua destruição ditou a mudança da capital de Ciudad Vieja para Antigua. Os outros dois vulcões são a oeste da cidade: Fuego e Acatenango, que subimos.
Antigua é o arquétipo de cidade colonial espanhola, com a sua praça mayor - aqui, denominada de Parque Central, já que é arborizada - onde se localizam os palácios de governo e a catedral. É, literalmente, o centro da cidade e também o seu eixo: a partir daí, as avenidas denominam-se pelo seu número, seguido de "norte" ou "sul" e as ruas, por seu turno, pelo ordinal, seguido de "nascente" ou "poente". E por se tratar de uma grelha, a orientação é facílima em Antigua, sem surpresas.


As ruas são calcetadas à maneira antiga e a construção, bastante preservada, é colonial; em cada rua há uma igreja, mais ou menos recuperada, ou um mosteiro reconvertido em hotel. É esta riqueza de património - e a sua conservação - que conquistaram a certificação da Unesco como Património da Humanidade.





É uma cidade que conta com boa infra-estrutura turística e que tem muitas escolas de espanhol como língua estrangeira. Por isso, a sua população flutuante consiste de muitos estrangeiros que aí permanecem por temporadas, fazendo da cidade uma base para as explorações da região dos vulcões.


Os restaurantes são muitos e variados e, para nossa imensíssima alegria, descobrimos que os guatemaltecos gostam de sopa. Há sopa a toda a hora e a toda a refeição, normalmente acompanhada por uma fatia ou duas de pão. Pela primeira vez, comi sopa de tortilla negra, uma sopa de vegetais com pedaços de tortilha feita com milho negro (seguramente tem um nome específico, que eu desconheço).

Passámos dois dias em Antigua, onde nos cruzámos várias vezes com as procissões por ocasião da Semana Santa. Quem quiser apreciar a religião de forma bem teatralizada, muito tétrica, ver homens mascarados de carrascos e meninas pequeninas com andores pesadíssimos aos ombros, não pode perder Antigua nesta época. Para mim, todo este espectáculo é um pouco excessivo, mas quando me cansava mudava de rua e via outra fachada linda.
Depois destes dois dias, usámos a cidade como ponto de partida para explorar os arredores. Contratámos passeios com duas agências, uma delas recomendada abaixo, e aproveitámos o calor com que nos receberam no Hotel Cirilo, um lugar que aconselho vivamente a quem gostar de alojamento cómodo, limpo, com um acolhimento familiar e com todos os confortos de um hotel de primeira categoria.
As nossas recomendações são:
Hotel Cirilo
Old Town Outfitters (a agência de viagens com passeios bem alternativos)
Temos muitas recomendações de restaurantes, mas essas ficarão para outro momento.
E para quem quiser ver mais fotografias, a colecção flickriana - ainda em actualização - encontra-se aqui. Muitas fotos são do Príncipe, a quem agradeço; ele tem um olho perspicaz e é rápido nos reflexos, tendo tirado fotografias espectaculares durante as férias.
Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
Portugalizo-me

Aqui há umas semanas, a Raquel Félix iniciou um muito interessante projecto de valorização das marcas portuguesas e da nossa apreciação das mesmas, tanto dentro como fora de portas. Lançou o blog Portugalize.me e muito amavelmente convidou-me para contribuir semanalmente. Este é o mais recente post que lá escrevi e a ilustração também é minha - quem me conhece, sabe o amor que tenho por estas sandálias!
Leiam e subscrevam!
Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
Vulcão Acatenango, Guatemala
A subida ao Acatenango foi das melhores experiências de viagem que tive até hoje. Melhor? Bem, talvez marcante ou emocionante sejam mais apropriados. Ou, reconsiderando, e usando uma expressão da minha querida C1, "pode ser melhor".
O dia começou pela fresca: às 4h30 da manhã, ainda escuro como bréu, apanharam-nos no hotel. Em Antigua, o frio da madrugada aperta. Por isso estávamos com as várias, digo, todas as camadas que tínhamos levado para a viagem. Na mão, o pequeno-almoço num saquinho. Entrámos na van com a nossa banana, o pão com doce de manga e o sumo de pêssego sem imaginarmos o que nos esperava.

O sol nasceu no caminho entre Antigua e a aldeia que nos serviu de campo de base. Apareceu atrás de uma colina, laranja, lindo, prometendo um dia especial. Oseas, o guia, no banco do condutor, parou para nos dar aquele regalo por nos termos levantado tão cedo. Nós fotografámos.

Chegámos então ao nosso ponto de partida, uma aldeia com uma latrina comum onde de um ganchinho pendiam folhas de jornal. A 2200 metros sobre o nível médio do mar, naquele aglomerado de meia dúzia de casas vivem os agricultores que cultivam as terras aráveis da encosta do vulcão. E também lá vive o nosso segundo guia, um maia de nome Sixto, que até aos dezoito anos pensou chamar-se Enrique.
Começámos a subida aos infernos. Sim, quem pensa que o inferno é exclusivamente subterrâneo está redondamente enganado. O vulcão Acatenango é um inferno, mas também é um paraíso.
Aos vinte minutos de caminhada, por entre campos de batata, de feijão e de milho, eu sentia que a minha garganta se fechava com o bater frenético do coração. Nem eram as pernas: era o coração que se tentava habituar ao esforço, num ar que já era rarefeito. Tive de parar com frequência para poder abrir uma estreita passagem para o ar. Pensei, muito seriamente, que não poderia continuar. O grupo ia lá à frente; comigo, o Príncipe e Sixto, que prontamente me arranjou uma cana-cajado. Continuei.
Na paragem seguinte, Oseas, o guia, contou-me o segredo: dar passos curtos, lentos, a um ritmo constante e sem paragens. E a verdade verdadeira é que, passado um bocado, me senti bem. Cansada, mas bem. As pernas obedeciam-me, o coração tinha voltado ao lugar dele, no peito. As costas estavam feitas um rio, reajustaram-se camadas de roupa e aí continuámos nós.
Depois dos campos cultivados passámos a uma etapa de bosque de montanha tropical. A vegetação, cerrada, oferecia-me mais oxigénio que os campos cultivados. Os trilhos eram, a dada altura, perfeitos caminhos de cabras, descidos aos saltinhos por quem havia pernoitado na cratera. Quando nos cumprimentavam, só lhes conseguia dizer que os admirava.
E sabem? A vantagem de viajarmos por países cuja língua conhecemos é exactamente essa: as pessoas respondiam-me, alentavam-me, diziam-me que faltava pouco para a próxima estação de descanso.

E entre estações de descanso, lá subimos mais metros e chegámos à parte de pinhal. Pela estação seca e pela altitude, muito menos denso que o bosque abaixo. A esta altura, as nuvens começaram a vir namorar-nos de perto. Às vezes víamos a pessoa da frente; às vezes não.

Passado algum tempo (horas, minutos?) chegámos ao ponto máximo da montanha em que nos encontrávamos e começámos a contorná-la num trilho estreitinho mas muitíssimo agradável de pequenas subidas e trechos planos. As minhas pernas já não sabiam mexer-se sem ser a subir, por isso obrigava-me apenas a separá-las em passos largos, para aproveitar a inércia do movimento.
Depois desta etapa de paraíso começou a verdadeira subida: no terreno de terra vulcânica solta, a sensação era a de andar na praia, na areia seca, como se estivéssemos a subir uma duna interminável.

Ao fim de cinco horas de subida, e a uma da cratera, Oseas preparou-nos um almoço de tortilha com guacamole, tomate e frijoles refritos para retemperar forças. A esta altitude, quando o sol brilhava, o calor era abrasador. Quando vinham as nuvens, o frio congelava-nos. Em dois ou três minutos a sensação térmica variava da praia para o ski, do Verão para o Inverno. Quando dei por mim, tinha os lábios completamente roxos. Temi que tivesse que ver com o mal de altura, mas tive sorte: contra o frio basta pôr mais uma camada e calçar umas luvas, emprestadas.
Chegou então a última subida, porventura a mais difícil: pedra e terra solta, numa inclinação sem um arbusto ou árvore. Caminhámos pela crista da montanha: qualquer passo ao lado seria já, tecnicamente, uma encosta - bem inclinada, por sinal. A cratera esperava-nos, cada vez mais perto. Mas cada vez custava mais pôr um pé à frente do outro. No grupo, houve quem precisasse de comprimidos para combater as náuseas provocadas pela falta de oxigénio. Comigo, não sei que milagre se processou: depois do início tremido, tudo se compôs e não mais senti os efeitos do ar rarefeito.
Quase a chegar à cratera, sentia os olhos a marejar-se de lágrimas. Quem diria? Depois de ter achado que ficava logo no início, não foi com muita confiança que retomei a caminhada. Estar ali, naquele momento, quase, quase a chegar à cratera foi mágico.


E depois cheguei. Seis horas, 15km e 1776m de desnível mais tarde, cheguei à cratera. Dei um salto. Celebrei. Ao lado, o vulcão de Fuego fazia breves aparições por entre as nuvens. Da sua cratera saía uma linha de fumo; as suas erupções ouviam-se ali mesmo ao lado e a cinza caía-nos em cima.


Começou a cair uma granizada valente que foi cobrindo a cratera de branco. As pedrinhas que me caíam nas orelhas doíam. Muito. E começámos a descida.
Não fazia a menor ideia de como conseguiria chegar à base, sobretudo tendo em conta que as minhas pernas já só sabiam subir. Descobrimos, com muita alegria, que a terra solta - tão terrível de subir - era muitíssimo divertida de descer, com o improvável bónus de ter de esvaziar os sapatos de pedrinhas umas vinte e três vezes por minuto. Descemos por trilhos diferentes, trilhos estreitos, largos, de terra firme e terra solta, de pedras, de raízes. O meu rabo viu o chão mais que uma vez.
Até que, finalmente, chegámos à aldeia. E aí, as minhas pernas recusaram-se terminantemente a mexer mais um milímetro que fosse.
O dia começou pela fresca: às 4h30 da manhã, ainda escuro como bréu, apanharam-nos no hotel. Em Antigua, o frio da madrugada aperta. Por isso estávamos com as várias, digo, todas as camadas que tínhamos levado para a viagem. Na mão, o pequeno-almoço num saquinho. Entrámos na van com a nossa banana, o pão com doce de manga e o sumo de pêssego sem imaginarmos o que nos esperava.

O sol nasceu no caminho entre Antigua e a aldeia que nos serviu de campo de base. Apareceu atrás de uma colina, laranja, lindo, prometendo um dia especial. Oseas, o guia, no banco do condutor, parou para nos dar aquele regalo por nos termos levantado tão cedo. Nós fotografámos.

Chegámos então ao nosso ponto de partida, uma aldeia com uma latrina comum onde de um ganchinho pendiam folhas de jornal. A 2200 metros sobre o nível médio do mar, naquele aglomerado de meia dúzia de casas vivem os agricultores que cultivam as terras aráveis da encosta do vulcão. E também lá vive o nosso segundo guia, um maia de nome Sixto, que até aos dezoito anos pensou chamar-se Enrique.
Começámos a subida aos infernos. Sim, quem pensa que o inferno é exclusivamente subterrâneo está redondamente enganado. O vulcão Acatenango é um inferno, mas também é um paraíso.
Aos vinte minutos de caminhada, por entre campos de batata, de feijão e de milho, eu sentia que a minha garganta se fechava com o bater frenético do coração. Nem eram as pernas: era o coração que se tentava habituar ao esforço, num ar que já era rarefeito. Tive de parar com frequência para poder abrir uma estreita passagem para o ar. Pensei, muito seriamente, que não poderia continuar. O grupo ia lá à frente; comigo, o Príncipe e Sixto, que prontamente me arranjou uma cana-cajado. Continuei.
Na paragem seguinte, Oseas, o guia, contou-me o segredo: dar passos curtos, lentos, a um ritmo constante e sem paragens. E a verdade verdadeira é que, passado um bocado, me senti bem. Cansada, mas bem. As pernas obedeciam-me, o coração tinha voltado ao lugar dele, no peito. As costas estavam feitas um rio, reajustaram-se camadas de roupa e aí continuámos nós.
Depois dos campos cultivados passámos a uma etapa de bosque de montanha tropical. A vegetação, cerrada, oferecia-me mais oxigénio que os campos cultivados. Os trilhos eram, a dada altura, perfeitos caminhos de cabras, descidos aos saltinhos por quem havia pernoitado na cratera. Quando nos cumprimentavam, só lhes conseguia dizer que os admirava.
E sabem? A vantagem de viajarmos por países cuja língua conhecemos é exactamente essa: as pessoas respondiam-me, alentavam-me, diziam-me que faltava pouco para a próxima estação de descanso.

E entre estações de descanso, lá subimos mais metros e chegámos à parte de pinhal. Pela estação seca e pela altitude, muito menos denso que o bosque abaixo. A esta altura, as nuvens começaram a vir namorar-nos de perto. Às vezes víamos a pessoa da frente; às vezes não.

Passado algum tempo (horas, minutos?) chegámos ao ponto máximo da montanha em que nos encontrávamos e começámos a contorná-la num trilho estreitinho mas muitíssimo agradável de pequenas subidas e trechos planos. As minhas pernas já não sabiam mexer-se sem ser a subir, por isso obrigava-me apenas a separá-las em passos largos, para aproveitar a inércia do movimento.
Depois desta etapa de paraíso começou a verdadeira subida: no terreno de terra vulcânica solta, a sensação era a de andar na praia, na areia seca, como se estivéssemos a subir uma duna interminável.

Ao fim de cinco horas de subida, e a uma da cratera, Oseas preparou-nos um almoço de tortilha com guacamole, tomate e frijoles refritos para retemperar forças. A esta altitude, quando o sol brilhava, o calor era abrasador. Quando vinham as nuvens, o frio congelava-nos. Em dois ou três minutos a sensação térmica variava da praia para o ski, do Verão para o Inverno. Quando dei por mim, tinha os lábios completamente roxos. Temi que tivesse que ver com o mal de altura, mas tive sorte: contra o frio basta pôr mais uma camada e calçar umas luvas, emprestadas.
Chegou então a última subida, porventura a mais difícil: pedra e terra solta, numa inclinação sem um arbusto ou árvore. Caminhámos pela crista da montanha: qualquer passo ao lado seria já, tecnicamente, uma encosta - bem inclinada, por sinal. A cratera esperava-nos, cada vez mais perto. Mas cada vez custava mais pôr um pé à frente do outro. No grupo, houve quem precisasse de comprimidos para combater as náuseas provocadas pela falta de oxigénio. Comigo, não sei que milagre se processou: depois do início tremido, tudo se compôs e não mais senti os efeitos do ar rarefeito.
Quase a chegar à cratera, sentia os olhos a marejar-se de lágrimas. Quem diria? Depois de ter achado que ficava logo no início, não foi com muita confiança que retomei a caminhada. Estar ali, naquele momento, quase, quase a chegar à cratera foi mágico.


E depois cheguei. Seis horas, 15km e 1776m de desnível mais tarde, cheguei à cratera. Dei um salto. Celebrei. Ao lado, o vulcão de Fuego fazia breves aparições por entre as nuvens. Da sua cratera saía uma linha de fumo; as suas erupções ouviam-se ali mesmo ao lado e a cinza caía-nos em cima.


Começou a cair uma granizada valente que foi cobrindo a cratera de branco. As pedrinhas que me caíam nas orelhas doíam. Muito. E começámos a descida.
Não fazia a menor ideia de como conseguiria chegar à base, sobretudo tendo em conta que as minhas pernas já só sabiam subir. Descobrimos, com muita alegria, que a terra solta - tão terrível de subir - era muitíssimo divertida de descer, com o improvável bónus de ter de esvaziar os sapatos de pedrinhas umas vinte e três vezes por minuto. Descemos por trilhos diferentes, trilhos estreitos, largos, de terra firme e terra solta, de pedras, de raízes. O meu rabo viu o chão mais que uma vez.
Até que, finalmente, chegámos à aldeia. E aí, as minhas pernas recusaram-se terminantemente a mexer mais um milímetro que fosse.
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